segunda-feira, 1 de abril de 2013

prostrado com cabeça apoiada na mão, tampo da mesa é cotovelo

a planura do café.
o ócio do café.
o langor do café.
o semicerrar de olhos do café.
as tardes de sol do café.
as sombras passantes do café.
os fregueses acostumados do café.
as conversas espúrias do café.
as revistas e jornais espúrios do café.
o tilintar frio do café.
a opinião comum do café.
a negligêngia do café.
a certeza do café.

a acidez do café.
as boas-tardes e os adeuses do café.
as conquistas do café.
o verde da serra ao fundo do café.
o chilrear bravio no largo do café.
as coisas que se perdem no café.
as coisas que se ganham no café.
as horas vagas, o esforço calmo do café.
a ideia aproximada de querer do café
mais café em torpor de café
mais daquilo que nos é
a semelhança inevitável com a vida de café
um passeio sonâmbulo contemplando o café
ao fundo largo, entre as ruas desertas estende-se aquilo que é
o murmúrio surdo, a entrada e a saída do café
os passos calmos que páram, abrem-se as portas do café
entra na senda niilista a fumegar de vazios o café
cheira-me a abismos, sufoca-me de abismos o café
daquilo que nos é caro nada resta, apenas o café
nos pressente o olhar, o coxear, o sussurro louco do café
a ecoar na mente de quem se perde nas tardes de café
a olhar enamorado o tempo, o vento, as árvores agitadas, o cheiro a nadas
a preguiça, a vingança prostrada, o tempo aniquilado, a pausa, o limbo,
o rio, as margens chacinadas pegaram fogo, as nossas casas
sumiram-se na lava que nos trouxe o desejo puro e cristalino
de dar à língua um outro murmúrio de café, ais que de nós se levantam,
ais que se desenrolam na boca, ais que vão ocos como bolhas
estarrecer o tecto do café, salpicar com fumo e manchas de tédio
o bolor inaudito, a espera infinita, o tempo perdido,
arrepiado, a saudade de um infinitivo estático nosso,
talvez agora sim, ou antes nunca  porém
estar e não estando, crer e não crendo, ser e não sendo
ficar e não ficando ao largo, na margem esguia e retomada
das tardes vãs que nos roem unhas em desespero
morno lume brando, melodia
que se espelha no arco gigante do dia
dias
com noites dentro
a viagem escura e tardia
no banco lá do fundo, na mesa lá do fundo, no fundo lá do fundo
onde está suspenso o relógio parado,
pilar da ponte que vai de mim para o outro
o tédio, a magia
do café.

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