https://www.youtube.com/watch?v=6Ql8TidvZto
o clarear comum da manhã
traz-me à memória essas árvores
que outrora vi
afogadas num rio.
catedrais submersas
de vacuidade.
não lhes sei o cantar
de seiva. hoje nu e distante.
passei sem lhes perguntar
junções de cor na tarde.
se havia afectos e comunhões
entre elas, entre-margens.
passei, como tantos,
sem intenção, sem desígnio,
sem lhes notar cambiantes
de dor convicta e estática.
agora penso que sim,
que o seu tormento era
branco nítido no raiar de tarde
que se solta entre as nuvens.
mais intenso que qualquer grito,
o grito sendo ele a veia
a brotar o violento sumo
de uma embolia retida de sempre.
era o viver de planta
o querer de árvore,
um profundo arrependimento
sem pensamento
sem querer, sem esperar,
sem tecer no longínquo
a carvão o indefinido risco do
latejante caminhar.
tão claramente vi
essa linha de plantas que se escoa
que acordo só, voltado para a parede
sem achar nunca ter adormecido.
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