Foi numa epifania
de sexta à tarde
como tantos outros
têm epifanias quando debruçados
têm cães e dejectos de cães
seguros nas ideias
que só ladram de quando em vez
ao vizinho do lado
e à chávena de café fria
que traz o tédio primaveril das gentes
abandonadas de ócio pelas ruas
descentes
por onde escorrem sóis de tardes
vazias.
Nesse caminhar
de coxo
soube pela voz
do talhante que berrava
clientelas entre portas
mas de peito aberto
como se querem
borreguinhos novos
que ia ser eu
novo espécime sobre-humano
que iria entrar em talhos
em tardes de maio
e noutros tantos maios vindouros
clamando que a nossa carne
também se vende
exposta despida depenada
sem pêlos para não chocar
e que não somos mais que
remoída antropofagia
e que o cheiro a pés
não nos incomoda quando os temos
na língua
e que o rumor de mãos nos bolsos anexos
não nos incomoda quando as temos
apertadas
contra os sexos.
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