sábado, 18 de maio de 2013

a uma puta morta encontrada num parque


Afasta-te Lisboa
Afasta-te e à tua luz incandescente
que não tem mais de si
que o relâmpago quente
do alcatrão ao comprido das estradas
com fios laranja a darem sentidos avessos
à noite das prostitutas mais visíveis
agora que têm saias por baixo dos cabelos
com o baton esquecido na chávena
que bebeu café com algo mais dentro
comungando a mistura-união
da preparação para todo o casamento
momentâneo da dor consigo mesma através
do vidro corrido do carro só para saber
se de pé é mais barato e como é
faz-se aqui ou ali
o exame aos órgãos indecorosos
que se querem tão intensamente
como carne em lume lento
tão quente forte prenhe
de tempero
Isto mais a vida
tudo tão denso
tudo tão cheio
com o sabor inflamado a ferro
de sangue escorrido inteiro
pelo luar a meia cadência
revelando o estreito que desce do pescoço
ao seio porém agora submerso
que vem o dia inflamar de vozes
o pássaro mais velho do seu tempo
sobrepondo o hálito quente da madrugada
à puta inconsciente que jaz
enfeite festivo a boiar na lama
para dar ar mais alegre
mais fascinante
à noite que se ausenta
mas que nos deixa
- oh que atençõezinhas -
assim plantadas
de olhos abertos
e bocas amarrotadas
as justa-posições da sincronia
porque vivemos sãos com sol
mas também vivem sãs
lâminas fortuitas a cruzar
mais carne que ar só para
o povo depois gozar
do líquido coalhado
que o cão fareja
porque no fundo não é pecado
ser cão
se isso algum dia nos servir de lição.

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