quarta-feira, 8 de maio de 2013

assoma à janela
a figura sombra retrato
da mulher pálida e esguia
contemplando em mote de horizonte
o silêncio feroz de um país
em tempo de guerra.

assomo eu à janela
nestes dias parados
sórdidos por serem bastardos
e da raça má e exangue
dos que nos sugam límpida linfa
pálida como a mulher que contempla
em 1935 o país
vento de seara a ser antes de si
prenúncio de guerra.

assomamos nós às janelas
da cidade vazia
evacuada pelos gritos das gaivotas
subservientes como bombas
a deslizar no dedo o rasto
de janelas com dentes de vidro
que roem devagarinho a língua dos cortinados
de linho como o céu
nosso pecado roubado.
algum de nós
ouviu os gritos de europa sobre o boi
quando se deu o rapto?
algum de nós adivinhou tempo
para todos os dias terem
a margem fina de rosto
pintada no risco de olho
como fino traço sobreposto
aos que se sabem
morrer com a mão
direita ao peito
chamando-se heróis sem esforço
ou simplesmente
sós?

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