domingo, 5 de maio de 2013

"The Unanswered Question" - Charles Ives

veio esse dia
eu sei que viria

    caminho e leio
nas minhas mãos
o espaço côncavo
diz
não presença.
sustento o
(insustentável)
peso fixo
da marginalidade das coisas
entre os punhos enlaçados.

todos têm o seu sentido
sublimado 
em contínuos de estrelas.
todos têm nos passos direitos
predestinados
o seu cunho pessoal
e a voz traz
nas mãos peso
de gente com carne
de fé

     creio-me
boquiaberto
tentando reter na secura
o pranto que desconheço
calando o zunido
na rua nas praças nas avenidas
que trepida e me raspa os ossos
entre-dentes
raiva em saliva
de quem sabe
emoldurado
o contorno de vida.

         e as minhas mãos não têm
sangue que se lhes escorra
nem linfa nem fleuma nem éter

         as minhas mãos
que sustentam o indizível atroz
espaço delas mesmas
prendem
(agonia das agonias)
menos que ar

menos que eu
cruzando o pescoço
ao comprido da estrada
nas linhas pintadas
para repassar
(se não mesmo trespassar
branco
de lâmina de agosto
o poeta)

abraço sem dedos
que diz
o aperto ele mesmo
que diz

a ponte sem margens.


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