terça-feira, 7 de maio de 2013

amor fati

quando levar dentro
do meu olhar
um espaço teu de ombro
poderá rebentar de dentro da terra
nova força em jacto
iridiscente
que és tu
caule longínquo
a navegar outro céu com
certeza nova
de folhas
a enrolar
nós
a cantar
o presente com face
tardia de laranja
não sabendo jamais
que vento foi aquele
ou que profundo hábito
de nos deixarmos estar caídos horas
perdidas no enterro
de um divã morno
para depois sentirmos
que fugimos para dentro
e que todo o conjunto aprumado
com sala com estantes com livros
contra as janelas a
chamarem para o rio
fomos eu e tu
sós
olho com olho
dente com dente
sem termos ouvidos
para a foz dos rios dos outros
e que só para nos carcomermos
temos o valor inteiro dos dias
não intercalados.

não me ofereceste
salomé com joão
ao colo de um beijo
ou simplesmente
um teu último
dedo sufocado
escavado na testa
do desejo.

porque não tinhas
a nesga de ombro
com especulada vista
sobre o tejo
em tardes longas
quase espraiadas
para a outra margem

porque não eras
mais que rasto de véu
em chamas no tecto do quarto
antes azul
a longa linha de olhos desmaiados
num tiquetaque mudo morto
ou o benzer sussurrado
no sentido do escorrer
da água em plano inclinado
espaço completo de ti
que não te sabe mais nome
que o de fábula.

meu âmago
cai redondo.
seu som seco de si
emerge como
sirene permutada
por brisa de tarde nos penhascos.
eles cantam em sal de mar
o teu rosto
memória
carne de deuses segurando
a raiz do céu contra a saia suja
puro contraste de janela
fechada
onda do medo
refluxo sujo
na curva de anca escura
da hora em que vieste
cantando
de lábios cerrados
para os lençóis
que te abraçavam

esta é
a madrugada.



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