as contorções de braços
de costas e pescoços
de almas
não pagam dívidas
mas na dúvida
choremos um pouco mais
quente o pranto
para ser sal da terra
um dia o nosso vento
lusitano apenas porque
lhe deu o declive de uma ravina
espanhola entre cáceres e badajoz
e no entanto tudo era planície
e havia mais fogo na terra
que nas searas
mas nós clamávamos com secura
de língua morta frouxa apagada
- ainda antes de existir -
a reivindicação a fazer pães de castelhanos
e a cozer as línguas retorcidas
num espeto com bom lume.
choremos um pouco mais
que não custa
ser lusitano
e tristezas não pagam dívidas
mas calam-nas
sim
no momento em que a pedrada suja
do nosso dilema vital
não tem voz suficiente
para se sobrepor
ao grito negro do lenço antigo atado na nuca
da mãe que vê partir o filho
adivinhando-lhe pequeno já
apenas nascido
o cadáver incerto
perdido nas brumas
a quem já nem restam
frio cheiro egrégio
de memórias.
Sem comentários:
Enviar um comentário