foi
um já outro eu
a caminhar contra o sol sombra
paralelo às árvores que fazem parque
conjunta esfera de jardim a banhar
flocos quando o vento vem dizer
com voz antiga
um eu outro já
adeus.
superfície pele de mim com passos
a vigiar cantos mortos que lançam
quadros impossíveis sobre o rasto do cabelo.
não sinto bem este chão
que assim tão certo
parece até liso
parece até perto
ele mesmo coisa plana.
não sinto bem esta luva de tarde
a dizer-se e intrometer-se como
se se chamasse a si mesma
menina de seis horas ou agreste pulsar
de dia velho a escarrar às sarjetas
transparentes das membranas que restam nos dedos
dos pés nebulosos. Levitação
era o nome do alienado.
quando o mundo
morreu
por motivo nenhum
e logo a seguir
mais ou menos três dias depois
ressuscitou
por motivo nenhum
não sentiu maior calor
nas pedras quentes de laranja tarde
a desenhar calçada portuguesa.
saiu apenas de casa num domingo à tarde
mais tarde do que num domingo habitual
para deitar um olho último
sobre o canto dos pintassilgos acasalados
e talvez quem sabe afagar-lhes o ninho destruído
com um canto de boca fechada
como faziam os antigos sem língua
que por serem sós
eles e o sol
tinham um outro modo de afagar
douradas tardes contra o peito
deixando-lhes rasto mais sólido
de rio que fende
mais líquido
de mão que freme.
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