sexta-feira, 3 de maio de 2013

intermezzi


oh, se visses
o passageiro recorte de asa
no azul de uma gaivota

e esse milagre ocasional
do sol descente
sobre
nós espectadores
nós folha escrita em parágrafos paralelos
nós que depois
tipografados
sabemos nas mãos
marca tinta
do nosso adeus.

oh, se escutasses
parapeitos de janelas
finas varandas de um outro mundo
na hora da rega ritual.
canto que brota do calor das casas
com as cores do teu jardim.

e se levasses na mão
esse fio dourado de dia
e o trouxesses
ao pescoço
de quando em vez
para trazer também
contigo as ruas que desaguam
silenciosas no cais.
//
Será que nos esquecemos
das palavras certas?

Será que alguma vez
fomos o gesto
ele todo inteiro?
//
Lisboa adormece abandonada
com o sorriso translúcido
de Ofélia.

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