sexta-feira, 3 de maio de 2013
trazei-me o gato companheiro
trazei-me o gato companheiro
à janela adjacente
ao meu dia incompleto.
finalmente retirado
de um sólido desapego
terreno sentirei felino
o crepitar augúrico
dos bigodes ledos
[um pouco de peixe
se lhes pende na alma
como a nós todos marinheiros]
saberei ser o vegetar diurno
meu farto e franco
amigo da contemplação
a quem só restam
sóis muitos lusitanos
e uma fome de tempo
como de rua.
ante a janela
civicamente trancada
ante a hermética lonjura
do mundo corrido em reflexo
companheiro temo-nos olhos
com um qualquer tipo de líquido maior
a boiar secreto neles.
ainda irei e tu estarás
estudando as leis incompreensíveis
dos deuses da voz rouca e das mãos
em veias que brotam como raízes de árvores que nunca viste.
desistirás? nunca
o tarde vem cedo
e eu calado rezo contigo
o sopro admirável de um hino.
mais que todos
tu mestre
retiraste ao dia
a sua voz
sendo apenas legado vivo
do tempo remoto em que me deixei.
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