excessivos poetas
de sotaque lusitano
a encher de canto vago
o novelo do verbo
triste e acetinado
do cinzento destes dias?
[vê como o fumo branco baço
te desenha à volta do rosto
os contornos notáveis do inverno
e ainda não passamos de agosto]
excessivos lamentos
para tão poucas horas
de chuva anual
e apenas dez punhados de gente
tão igual
tão latente
este frio ancestral
sob a forma de calor ardente.
[vagueio na cor permutada
de uma folha ainda árvore toda
ela contida.
não cheiro mais rosas dos que as que me dão
as sebes mudas dos vizinhos
que entre cortinas adivinham
no meu rasto
olha ali vai o poeta
não é certamente o que dizem.]
excessivo parafrasear
da ironia no coçar de barba
em queixo ralo.
não temos mais do que merecemos
cala o povo
faz a voz um todo
fecha a porta
ó indecente
o teu ócio de saliva morna
não corrói nem ofende
por isso és
excessivo e deverias
excisar-te
gangrena negra
de trazer por casa para pôr
ainda sobre a lareira
e folhear aos domingos soltos sem vontade
nesse molhar de dedos
que te afoga a letra.
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